segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Top de A à Z

A 21ª edição do Top dos + Queridos, pormenorizadamente
Top de A à Z
Considerado por muitos como o concurso mais antigo, se não o primeiro, que visa valorizar o trabalho musical dos artistas angolanos, o Top dos + Queridos totalizou, no passado 1º dia de Outubro, 21 edições, tendo com isto, a Rádio Nacional de Angola – organizadora – mostrado que afinal de contas o povo é o principal crítico desta arte. O Semanário Angolense acompanhou a gala e traz aqui um abecedário descritivo de tudo que aconteceu e o que devia ter acontecido neste evento. E aproveita noticiar, em primeira mão, o que se passa com o músico Kid MC.
Romão Brandão
A
nselmo Ralph. Sem sombras de dúvidas, a lista de trapaças da referida edição do Top começou no palanque e foi inaugurada por este artista, com a demora que fez para subir e cantar a plausível música «Não me toca». Anselmo, o cantor – que é visto como o mais romântico do mercado angolano e o 7º mais bem pago, justificou o atraso culpabilizando a sua banda que ainda não havia se posicionado.
Por este facto, a organização sentiu-se obrigada a cobrir, aproximadamente, 4 minutos (de demora) com uma apresentação improvisada pela Banda Movimento. Fora disto, o cantor ganhou – junto de Puto Português – o prémio honorífico (menção honrosa) dos júris.
B
ento Kangamba. Conhecido como o «empresário da juventude», esta personalidade foi lembrada pelo grupo Zona 5 e agradecida pelo apoio significativo que tem dado aos artistas angolanos, particularmente, por ter ajudado estes mesmos jovens a realizarem a sua tournée em território nacional. Com esta acção, os jovens da 5ª Zona deram a entender que o «BK» - como é também conhecido - é dos poucos empresários angolanos que olha aos artistas.
C
inco. É o número exacto de participações da cantora Ary no Top dos mais queridos. Este jornal aproveita fazer a correcção, quando em edições anteriores disse que contabilizava a terceira vez que ela estava entre os 10+. Realmente bateu o recorde de participações o que, segundo a equipa organizador, tem sido fruto do trabalho que a cantora tem mostrado nos últimos cinco anos – contrariamente daquilo que diz o público: “deve haver uma mãozinha oculta no jogo”.
D
eprimente. O «Comando» de Celma Ribas não foi bem reagido pelo público neste dia. Tal como se tem dito: «o mesmo público que hoje votou em si, amanhã contribuirá na sua queda». Foi deprimente sim quando a Celma apresentava o «comando da sua vida», que para muitos passou despercebidamente, mas para alguns, é impossível disfarçar e deixar de registar os «oh’s» ou a indignação que o público mostrava. Será que é mesmo o público que escolhe os candidatos?
E
scandalosa. Foi o termo que a camada feminina, do público que ali estava, utilizou, quando Ary, acompanhada do noivo C4 Pedro, dançou – depois de interpretar a música «Pensa bem» - o «Fogareiro» de Noite Dia. Parecia uma pequena encenação preparada pelo casal, que agradou alguns, enquanto os outros interpretaram, aquilo que a Ary fez, como sendo um atentado ao pudor. Estes dois artistas foram os que mais tempo fizeram em palco e o casal mais «invejado da noite» - inclusive, mostraram, claramente, não ter qualquer problema com isto, proferindo as seguintes palavras: “ou nos matam… ou quê”.
F
utungo de Bellas – o centro de Conferência escolhido para a gala. Este ano deu para acomodar (quase) todo mundo em relação a gala do ano transacto, pois notava-se alguns acentos desocupados. O ano passado houve pessoas que assistiram a gala – do princípio ao fim – em pé, sem contar com aqueles que procuravam sítio para estacionar a viatura e acabaram por ouvir a gala a partir de fora. Atendendo o interesse que a população tem mostrado, nos últimos tempos, em assistir o evento que galardoa os mais queridos, aquele centro de conferências não poderá suprir a demanda nas suas próximas edições.
G
anhos merecidos. O público não mostrou qualquer protesto quanto a atribuição dos prémios desta edição do Top, por seu torno mostrava-se satisfeito e convicto de que foram eles mesmos que votaram nos três cantores mais queridos deste ano.
H
armonia. A música é a arte de combinar harmoniosamente vários sons, de acordo com as regras definidas. O evento a que fizemos menção faz questão de unir 10 artistas considerados mais queridos o que, consequentemente, todo indivíduo que acompanhou o espectáculo viu que houve realmente uma combinação de sons simultâneos, agradável ao ouvido.
I
novação. Uma das inovações desta edição do Top é o prémio que a Coca-Cola decidiu atribuir ao melhor artista - anuído por esta mesma empresa. A outra é a alteração da quantia total gasta em prémios – de 50 à 85 mil dólares – tudo porque a organização decidiu fazer a entrega dos diplomas e troféus em forma de cristal.
J
uventude em Alta. A camada jovem contribuiu maioritariamente na eleição dos mais queridos, tendo, segundo a organização, alcançado uma percentagem de votos de 37%.
K
id MC – simplesmente não cantou por orientação médica. Este jornal achou preocupante e procurou buscar esclarecimentos sobre esta posição do artista. Pouco antes de entrarmos em contacto com o seu produtor musical, Samurai, acessamos ao blogue que o mesmo (o produtor) geri e encontramos a informação de que: «por orientação médica, o cantor estará afastado dos palcos até Dezembro deste ano». Tomamos também conhecimento de que foram cancelados todos os Shows da «Tournée do Incorrigível» que estavam planeados para Cabinda, Lubango e Uige.
Assim sendo, tivemos uma breve conversa com o produtor do terceiro classificado do Top (com 193.495 votos) e este revelou-nos que “o Kid sofre de Ansiedade” - estado afectivo penoso, acompanhado de um sentimento especial de tensão interna, que pode causar dificuldade de respiração; falta de ar ou sensação de sufoco.
L
imitação. Já está na altura da RNA descentralizar o Top dos mais Queridos, até porque trata-se de um concurso de carácter nacional e não provincial. Nota-se que os artistas consagrados, que não sejam de Luanda, têm sido esquecidos, pois dão mais ênfase aos da capital. Devia ser criada uma comissão de estudo dos outros mercados, além de Luanda, porque se assim não for a organização estaria a deixar o concurso limitado.
M
assano Jr. - Fez parte da mesa do jurado (porta-voz) deste certame, tal mesa que tem como responsabilidade a contagem dos votos e análise crítica a todas as músicas - para que se encontre o vencedor do prémio da crítica. Por ser um ícone na música angolana, foi convidado a mostrar aquilo que sempre soube fazer, uma vez que o mesmo é considerado o «Rei dos Tambores». Massano Jr. – que também é fruto de um momento histórico da música angolana, caracterizado pela resistência à assimilação da cultura colonial portuguesa - deu um «cheirinho» batucando, 2 minutos apenas, de uma forma comovente. Mostrou que o tempo não apaga aquilo que está na alma!
N
goma - batuque. Foi muito bem feita a homenagem ao batuque e aos seus executantes (Galeria Celamar, Jovens do Prenda ou o Semba Muxima). O som do «tambor» abafou completamente aquela sala que sujeitou o público a soltar aplausos à boa representação feita pelos grupos convidados.
O
rganização. Em Luanda dificilmente cumpre-se o horário estabelecido, por isto mesmo achamos por bem não tocar neste assunto. A comissão organizadora do evento cometeu um erro em restringir a dinâmica de chamamento, de cada um dos músicos concorrentes, ao palco, isto é: na edição passada, por exemplo, os músicos Calabeto e Patrícia Faria foram convidados a subir ao palco, não para cantar, mas para chamar dois ou três dos concorrentes. É uma dinâmica que contribui indirectamente no reconhecimento e respeito de um cantor em relação ao trabalho do outro.
P
aulo Flores. Tal como o Semanário Angolense havia perspectivado em edições anteriores, Paulo Flores conquistou o primeiro lugar do concurso deste ano. Com 10,13% que equivale aos 193.824 votos, o cantor mostrava-se confiante que iria ganhar, mesmo antes de ser anunciado o seu nome, aliás o público também mostrou isto - roubando as palavras da boca de Massano Jr. quando anunciava os vencedores.
De todos os artistas que passaram no palco este foi o único que conseguiu pôr em pé toda gente que ali estava; foi muito bem aplaudido e a população só se sentou assim que o cantor terminou a sua actuação. Além do prémio principal, ganhou também o da crítica e a primeira coisa que fez foi agradecer ao seu pai «Kota Kabé» dizendo que «nunca seria melhor nem pior se não fosse ele(o pai)».
Q
uistoso (estimado) Kiari Flores. Este rapazinho de 9 anos é filho do vencedor do Top 2011 e prendeu a atenção de toda gente acompanhando os «veneradores» do batuque, ou melhor, ele foi convidado a prestar homenagem à «Ngoma» - o grande instrumento daquela noite. Incrivelmente fê-lo muito bem para alguém que tem aquela idade; mostrou que sabe tocar e que pode ser um excelente percussionista, mas, (in)felizmente, confirmou que não está tão interessado, quanto ao pai, no mundo da música. “Toco desde os 2 aninhos, só não sei cantar”.
R
econhecimento. A cada dia que passa os trabalhos dos artistas angolanos estão a ser reconhecidos, fruto disto é o gesto da Coca-Cola em dar aquele prémio. Que hajam mais empresas e empresários com este princípio.
S
om. Para quem estava na sala de conferência em que ocorreu o evento notou que em alguns momentos houve interrupções no som emitido pelo microfone utilizado em palco. Algumas pessoas que acompanharam o mesmo evento a partir de casa desabafaram, à este jornal, que o som chegava em péssimas qualidades e nalgumas vezes muito baixo.
T
itica. Este(a) kudurista fez questão de marcar a presença no certame, mesmo não tendo a sua música entre as melhores, aliás, este ano, nenhum Kuduro figurou na lista dos 10+. Por este motivo, a organização convidou a kudurista Noite Dia a subir ao palco e ela, ousadamente, com as suas bailarinas, cantou e dançou o «Fogareiro».
Pouco antes do apresentador, Salú Gonçalves, ter anunciado o nome da Noite Dia, o público esperava que fosse o(a) kudurista Titica a cantar o então conhecido «Chão». Inacreditavelmente, Titica tem um público muito numeroso que, ansiosamente, gosta de vê-lo(a) cantando e dançando kuduro. “A organização errou nesta parte!”, afirmavam os fãs.
Ú
nica – é a Banda Maravilha. Os então chamados «Embaixadores do Semba», conseguiram dar o show da maneira que estão acostumados a dar, principalmente, à aqueles que conhecem o grupo desde os tempos afonsinos. Embora a sala esteve maioritariamente preenchida por jovens o «Sessa Mulemba» foi bem recebido pelos amantes da boa música. “Trabalho de mais velho é incomparável. A antiguidade conta”, disse um interlocutor. 
V
er o prémio. Pensava-se que este ano a RNA e os patrocinadores mexeriam no valor de cada prémio, mas vê-se que também estão a «travar». 2omil dólares para quem não tem nada já é alguma coisa, mas se olharmos noutras vertentes (daquilo que é a actividade artística) é uma quantia muito baixa em termos de valorização de um trabalho musical. No entanto, há necessidade de serem feitas constantes actualizações na tabela de prémios, Srs.
W
alter e Nicol Ananaz. Embora sejam irmãos (mesmo não sendo muito parecidos), nota-se que o músico, que já é conceituado, Walter Ananaz faz de Nicol Ananaz seu «discípulo» nesta andança musical. O primeiro Ananaz tem dado espaço de aprendizagem em termos de produção e sucesso ao segundo.
Ultimamente, se não faz a nota introdutória, faz o coro da música que tem sido maioritariamente cantada pelo segundo Ananaz, que, consequentemente, leva-nos a crer que estas músicas, hipoteticamente, têm sido compósitas pelo irmão mais novo. Trata-se dos sucessos que contribuíram nas duas participações consecutivas, dos irmãos, ao referido concurso, nomeadamente, o «Mboia» e o «Bomba».
Estes trabalhos em conjunto, possivelmente, poderão levar os amantes da música angolana à sujeitos de mais uma dupla musical, como os Irmãos Kafalas ou Irmãos Almeida, que chamar-se-á «Irmãos Ananaz». O grande problema é que neste tipo de irmandade tem sempre um que se escora ao sucesso do outro.
X
. Uma letra X (em tamanho grande) para a Organização, simbolizando o negativo, pelo facto de ter escolhido, Roberto de Almeida, como pessoa ideal para fazer a entrega do prémio principal do concurso. Se bem que esta personalidade política tem alguns aspectos ligados à arte, neste caso, mais para área da literatura, Jofre Rocha – também assim conhecido - pouco tem a ver com o mundo da música.
Está na hora de levarmos a sério a música e, consequentemente, os músicos angolanos. Atendendo o tempo de existência deste concurso (desde a primeira edição em 1982 - 29 anos) e o número de edições já feitas (21), para a entrega do prémio principal, pelo menos, seria convidada a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, ou talvez um músico conceituado da nossa praça. São estes pequenos reparos que, para uns, não significa absolutamente nada, mas para outros tem um vasto significado – referimo-nos aos próprios cantores.
Y
uppie - é um dos nomes que, possivelmente, adequa-se ao Puto Português. Apesar de não ser executivo, as outras palavras que qualificam este termo têm tudo a ver com a personalidade que este artista tem mostrado (dinâmico e ambicioso). O tempo que este artista perdeu compondo ou cantando Kuduro está a ser bem aproveitado no estilo Semba, ou melhor, nos últimos tempos, «Tugueda» - como é vulgarmente conhecido – descobriu que o seu talento musical está totalmente voltado para o Semba. Prova disto, este jovem conseguiu conquistar o segundo lugar desta edição do Top com 193.597 votos.
Vestido à rigor, o jovem da nova geração do Semba cantou a música «Zebedé» e foi o único artista – dos que passaram no palco – que agradeceu o público pelo grande apoio que tem dado aos artistas angolanos, dizendo que “é o público, o mais querido, e não os dez artistas escolhidos”. Cartazes de apoio ao «Tugueda» foram levantados, por uma parcela da plateia, aquando da actuação do músico. Parabéns!
Z
ona 5 – censurado e premiado. Sabe-se que este grupo tem uma outra música com maior audiência, intitulada «Abana o vestido», mas a comissão organizadora achou melhor não alistá-la, pelo facto dela estar munida de conteúdos menos educativos, que de certa forma influenciarão, negativamente, no processo educativo dos mais novos.
A música «Magala» apesar de ser usada como trilha sonora de uma publicidade da agente de telefonia móvel UNITEL – o que de alguma maneira fez com que fosse mais conhecida – não teve tanto impacto, quanto a «Abana o vestido». Esta pequena «censura» feita pelo corpo de jurado servirá de lição para os outros artistas desta praça, para que tenham mais atenção quando forem compor ou produzir as suas músicas, pois não basta apenas a instrumentalização mas sim o conteúdo educativos – aquilo que querem transmitir.
Ainda assim, este grupo aproveitou cantar um pequeno trecho da música censurada – não se sabe se, nos bastidores, foi este o combinado com a organização ou com o corpo do jurado. A Zona conseguiu ganhar o prémio Top Revelação Coca-Cola, equivale a dois mil dólares.